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E por falar em Família

 

Resido há mais de 30 anos em um edificio e com isto acabo conhecendo um pouco a história destes moradores com quem procuro conviver pacífica e amistosamente.

Um deles foi síndico por muito tempo e como tal era uma pessoa ativa, dinâmica e de fácil contato. De uns anos para cá, observei que este senhor passou a apresentar um comportamento que não lhe era comum, tornando-se mais arredio e pouco disponível para um bate papo rápido, fato este, que sempre mantínhamos , entre uma parada e outra nos respectivos andares.

Aos poucos, pude notar que sua aparência tornou-se mais fragilizada, e que, além do auxílio de sua esposa, passou a ser acompanhado por uma de suas filhas, já casada e residente em outro domicílio. Entre os dias e o corre corre de nossa vida, tomei conhecimento de que ,na verdade , o motivo por esta transformação do nosso simpático vizinho, que tanto contribuiu para o nosso bem estar coletivo, seria pel Mal de Alzheimer. De um senhor alegre, cheio de vida e de muito bom humor, se tem hoje uma figura frágil, andar cambaleante, repetitivo e olhar perdido em algum ponto do infinito.

Os moradores mais antigos sentem-se consternados ao vê-lo e mantem para com ele uma atitude delicada e afetuosa. Ele já não nos reconhece mais como pessoas que conviveram com ele e com histórias em comum . Mas, nós sabemos disto e cada um o respeita a seu modo.

Muito se tem escrito sobre o Alzheimer, suas características e desafios para a ciência e segundo estudos recentes, existem em todo o mundo entre 17 a25 milhões de pessoas com esta doença o que representa 70 % do conjunto das doenças que afetam a população geriátrica e se incluirmos nesta questão os familiares e cuidadores, podemos imaginar quantas pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente neste drama que atinje a todos sem discriminação.

No que se refere aos aspectos familiares, sabemos o quanto é dificil a convivência e o cuidar dos pacientes portadores desta terrivel doença, e quanto estas familias necessitam de muita paciência, tolerância , envolvimento e acolhimento, porém, sabemos que só isto não resolve a questão.

É necessário que os familiares se reorganizem em um novo cotidiano a fim de suprirem as necessidades básicas do paciente, oferecendo a ele um ambiente tranquilo e seguro,revendo a cada etapa da doença , novos ajustes e possibilidades de interação.

 

 

Somado a isto, tem-se o cuidador, que por opção ou imposição familiar, torna-se o parceiro de um drama que não é seu, mas que o leva a vivenciá-lo de forma plena e possivelmente a um adoecimento caso o mesmo não seja amparado em suas necessidades e direitos a um descanso, lazer, repouso e suporte. Acreditamos, porém, que o mais importante é que esta familia não se isole em seu drama e sofrimento e que se permita a uma convivência através de grupos de auto-ajuda, de receber e visitar amigos, de abrir suas portas para que haja uma troca significativa de informações e afetos.

Sugiro a leitura do livro “A Cor da Dor”, de uma colega assistente social do Rio Grande do Sul que relata de forma belíssima o seu convivio com um portador de Alzheimer. Vale a pena conferir.

Fortalecer as redes sociais do paciente e familiares fazem parte de nosso cotidiano profissional e para tanto buscamos através de nossa intervenção esta aproximação e contato não só com o paciente mas com sua familia a fim de auxilia-los a encontrar alternativas para uma melhor convivência e inclusão no cotidiano e meio em que se encontram.

Atualmente quase não vejo o nosso ex-síndico, acredito que pelo agravamento do quadro, porém, gostaria de registrar a acentuada participação dos familiares que passaram a visitá-lo com mais frequência e que aos domingos pode-se notar a presença alegre dos netos para o almoço . Isto é o que faz sentido e nos dá certeza de que em família ainda é possivel se viver e conviver com as dores e alegrias que a vida nos impõe.

Um abraço afetuoso e até o proximo número.

Maria Madalena Bicudo de Albuquerque Araujo
Assistente Social – Orientadora Familiar  

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